Gala Dalí
Na faculdade de arquitetura, o século XX me foi ensinado por homens tidos como gênios. O que a história apagou foi o cálculo pragmático que sustentava o delírio.
Elena Ivanovna Diakonova nasceu em 1894 em Kazan. Cresceu entre livros e o mundo do padrasto moscovita que a introduziu à cultura. Aos 18 anos enfrentou a tuberculose num sanatório suíço, onde conheceu um jovem poeta e o transformou em Paul Éluard. Em Paris, circulava entre os maiores artistas da época como quem sempre pertenceu àquele mundo. Antes de Dalí, já havia moldado um escritor. Depois, forjaria um mito. E construiu a única persona que o mundo nunca soube nomear. A dela.
Em “Gala Dalí”, Mara Carvalho ilumina a mulher que o meio preferiu esconder. O cenário de azulejos brancos de Ulysses Cruz estabelece uma atmosfera fria, transitando entre o hospital e a cozinha. Nesse lugar, o marido não tem corpo, flutuando apenas como voz distante. Sem a distração visual da fama, a narrativa pertence à gestora.
Elena ignorou a maternidade e nunca fingiu o contrário. Escolheu estruturar contratos, organizar os banquetes da alta sociedade e consolidar as vendas nos Estados Unidos. O parceiro era narcisista, traço batizado de genialidade. Ela era diretiva e ambiciosa, atitude julgada como manipulação. Enquanto ele habitava as telas, ela operava os números. O mundo aplaudiu a pintura e ignorou a mente que a mantinha de pé.
A atriz domina a cena sozinha. Armada de cinismo aristocrático contra qualquer vitimização, faz da plateia seu júri e edita a própria trajetória. Mara idealizou o Mi Teatro, local da montagem. Gala ganhou um castelo; a intérprete ergueu o seu. No palco, confessa que a arte existe porque a vida não basta. Fica difícil separar a personagem da autora.
Ele adquiriu o Castelo de Púbol para a esposa, refúgio que exigia convite formal, e instalou uma cripta dupla. Ela faleceu em 1982 e repousa ali. O artista encontrou o fim anos depois, no museu desenhado para a própria consagração. Prometeu a eternidade e faltou ao encontro. O apagamento se completou na morte.
Ficha técnica
Com: Mara Carvalho · Cenografia: Ulysses Cruz
Mi Teatro, São Paulo