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Guta

Por Marcelo Fava · 30 JUL 2026
Guta

Saí de Adorável Desgraçada sem saber sobre o que eu ia escrever. Fui atrás de referências e pesquisei mais do que devia. Já tinha acontecido antes, com O Motociclista no Globo da Morte — a pesquisa me afastando do que realmente importava. Nada organizava o que eu tinha visto ali. A peça só fez sentido pra mim depois, numa conversa informal com minha amiga Miriam.

Guta vive sozinha quando o passado bate à porta. Maribel foi sua melhor amiga de infância e sumiu há anos, sem despedida, sem explicação. Guta nunca fechou essa história. Todo ano, na mesma data, ela compra um presente pra Maribel — mesmo sem endereço pra entregar, mesmo sem certeza de que ainda existe alguém do outro lado pra receber.

O padrão se repete em outras relações. Ela empresta dinheiro pra uma amiga que some e não atende mais o telefone. Continua esperando gente que já seguiu a vida. No fim, não consegue nem tocar a campainha do vizinho pra assistir junto o capítulo da novela. A psicóloga Dana Crowley Jack chama esse movimento de silenciamento do self. Mulheres aprendem que preservar uma relação importa mais do que preservar a si mesmas, até perderem a capacidade de pedir o mínimo.

O presente pra Maribel também encontra eco na psicologia. Pauline Boss descreve isso como perda ambígua. É quando alguém se afasta, mas nunca chega a ser declarado perdido de fato. Guta deixa de ser apenas uma personagem. Ela passa a representar mulheres de idades e histórias diferentes. Gente que resolve o problema de todo mundo, nunca pede ajuda e, aos poucos, desaparece dentro da própria vida.

Volto pra campainha do meu prédio pensando em quem, na minha vida, nunca toca a minha. Talvez eu conheça mais de uma.

Ficha técnica

A partir de Adorável Desgraçada, de Leilah Assumpção · Direção: Ricardo Eche
Elenco: Mey Füchter

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