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Há Testículos no Meu Útero

Por Marcelo Fava · 03 SET 2026
Há Testículos no Meu Útero

A violência de gênero também passa pela forma como fomos criados homens. Eu fui criado pra ser másculo, viril, sem espaço pra sentimento — machismo que já vinha embutido, meu e de milhares de meninos que cresceram do mesmo jeito. Foi isso que me fez olhar de novo, assistindo “Há Testículos no Meu Útero”. Não por uma cena específica, mas pelo conjunto, um quadro atrás do outro. E perceber o que isso deixou não é simples, nem rápido.

A peça, da Azenha de Teatro, é um documentário cênico organizado em oito quadros, da gestação às heranças familiares, passando pela educação de gênero. Adriana Azenha e David Carolla assinam a dramaturgia e também atuam, misturando autobiografia, depoimentos gravados de mulheres e ficção. No Bioteatro, método de Nany di Lima, a própria biografia vira matéria de palco. A obra inteira sustenta uma pergunta: como criar filhos homens fora de um ciclo de violência.

Há Testículos no Meu Útero
Há Testículos no Meu Útero — foto: divulgação

A antropóloga Rita Segato chama esse processo de “pedagogia da crueldade”. Dentro do patriarcado, a masculinidade exige prova constante de força, sobretudo diante de outros homens, não só das mulheres. O adestramento começa na infância, ensinando o menino a esvaziar a empatia para caber nesse padrão. O que reconheço em mim vem desse mecanismo, não de uma escolha individual. Questionar isso pede mais que mudar de opinião: pede desobedecer a um olhar que me ensinaram e validaram desde cedo.

Essa herança não ficou na minha geração. Segue viva no avanço de discursos que reagem à autonomia das mulheres — na cultura red pill, na defesa da hierarquia e do controle, na tentativa de transformar igualdade em ameaça. O mais incômodo é ver mulheres também endossando essa lógica. E o Brasil mostra isso em número, não só em discurso: 1.571 feminicídios em 2025, recorde histórico, quarto ano seguido de alta, 4% a mais que em 2024, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Reconhecer o homem que me ensinaram a ser não significa ter desmontado tudo. O que aprendi continua pedindo revisão, todos os dias. A peça abre esse desconforto e não fecha nada por mim.

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Ficha técnica

Dramaturgia e atuação: Adriana Azenha e David Carolla
Provocação: Nany di Lima

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