Hamlet, Sonhos que Virão
O pedágio físico para descer às fundações do Edifício Copan é cobrado logo no primeiro degrau. O ar espesso de umidade e fantasmas recusa-se a circular. O Copan nasceu Cine Copan — e o traço de Niemeyer nunca foi metáfora. É estrutura que sustenta o que apodrece. São quatro décadas de silêncio oco, rachado agora pelo eco de um canteiro de obras. Antes da higienização que pasteurizará o espaço até 2027, a ruína abriu suas costelas para abrigar Hamlet, Sonhos que Virão.
A direção de Rafael Gomes e a cenografia de André Cortez cometem uma intervenção física que agride a passividade. Invertem a gravidade do olhar. Fomos empurrados, 345 testemunhas, para o limite exato onde operava a tela de projeção. O palco esmaga o recuo. Os atores dominam os sucessivos desníveis onde se fixavam as poltronas, domando a inclinação vertiginosa a golpes e fôlego. O declive os obriga a existir de um jeito que nenhum palco plano permitiria.
O brutalismo ergue-se como força que engole a sanidade dos corpos em cena. O cheiro de cimento úmido cruza com o suor de quem sangra sobre trilhos de metal. Shakespeare chega mastigado pelo concreto, não pelo veludo. O príncipe arrasta o colapso mental em regata encardida e botas de chumbo. O verbo de quatro séculos tromba contra frequências subgraves que fazem o osso da caixa torácica vibrar. Os lasers de Wagner Antônio fraturam o breu.
Encurralados nesses degraus irregulares, deixamos de ser plateia e integramos o asfalto deteriorado. Quando a loucura de Elsinore questiona a podridão do Estado, somos encarados de frente. Transformamo-nos na corte silenciosa que assiste à barbárie e à usurpação a poucos metros. Inteiramente inertes.
Ficha técnica
Direção: Rafael Gomes · Cenografia: André Cortez
Elenco: Gabriel Leone (Hamlet), Felipe Frazão (Horácio), Samya Pascotto (Ofélia), Eucir de Souza (Cláudio/Fantasma), Susana Ribeiro (Gertrudes)
Edifício Copan, São Paulo