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História

Por Marcelo Fava · 21 JUL 2026
História

No segundo dia de um fim de semana cultural no Rio de Janeiro, assisto a História, novo espetáculo da companhia brasileira de teatro, que celebra 25 anos de trajetória. No início, não consigo encontrar um fio. Corpos que se deslocam sem parar, luz em contraste, tempos que se sobrepõem. A cena se apresenta em fragmentos, como um surto. Aos poucos, porém, esse caos começa a fazer sentido.

O figurino é trocado diante do público, sem esconder o gesto. A música nasce ali, executada ao vivo por Felipe Storino, entre acordes de guitarra e silêncios calculados. A luz responde ao corpo, não o contrário. O texto recua, a performance ocupa o espaço e o corpo continua narrando quando a palavra já não dá conta. Rafael Bacelar conduz boa parte desse percurso ao lado de Carolina Virgüez. Acompanho seu trabalho desde Ao Vivo [Dentro da Cabeça de Alguém], primeiro capítulo de uma trilogia que História agora encerra, e há um domínio corporal que passei a reconhecer como marca de sua atuação, independentemente da montagem.

Demoro para perceber que estou assistindo, antes de tudo, à tentativa de um filho de compreender a própria mãe. Não sei se aquela história pertence à biografia de Rafael Bacelar ou se foi criada coletivamente pela companhia. Desisto de procurar essa resposta. O que encontro naquelas memórias é uma fragilidade profundamente humana.

Um pedido de desculpas entre mãe e filho é o que resta quando a sessão termina. Ela, marcada pela violência que sofreu. Ele, acostumado a chamar de força um silêncio que sempre foi dor represada. Quando Marcio Abreu escreve que “se não fizermos a História, seremos feitos por ela”, a frase deixa de soar como uma ideia e passa a existir na relação entre aqueles dois personagens, aproximando aquela história de abandono, preconceito e silenciamento.

Ninguém herda apenas sobrenomes. Herdamos também silêncios, gestos e modos de existir. Entender de onde eles vêm talvez seja um jeito de começar a escrever outra história.

Ficha técnica

Texto e direção: Marcio Abreu · Elenco: Carolina Virgüez, Rafael Bacelar e o músico Felipe Storino · companhia brasileira de teatro
Teatro II, CCBB Rio de Janeiro · 2 a 26 de julho de 2026

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