Uma vez por semana, o que eu vi

O que assisti, escrevi e vale a pena conferir — direto na sua caixa de entrada.

Luiz Antonio Gabriela

Por Marcelo Fava · 22 ABR 2026
Luiz Antonio Gabriela

Era 2017 e o trajeto diário seguia pela Linha Azul do metrô, rumo à estação Santa Cruz. Em uma daquelas vending machines que operam como sebos automatizados, encontrei um exemplar por dois reais: Luis Antonio – Gabriela. A leitura, absorvida entre as idas e vindas do trabalho, me desarmou nas páginas finais. Diante dos relatos sobre a morte de Gabriela e das cartas que buscavam um perdão tardio, chorei pela primeira vez em um vagão lotado. Era o peso daquele arquivo familiar que, despojado de artifícios, invadia a minha própria intimidade. No ano seguinte, em 2018, conheci o Teatro de Contêiner e assisti à encenação pela primeira vez.

No último sábado, 18 de abril, retornei à obra em um cenário que atesta outras fraturas. A Cia. Mungunzá, despejada de sua sede original, agora ocupa a Funarte após a destruição do Teatro de Contêiner pelo governo paulista. O palco continua operando como uma mesa de investigação onde o elenco manipula a luz e executa a trilha ao vivo. A montagem mapeia a violência que empurrou Gabriela para o exílio, sem esconder as marcas que ela mesma reproduziu no ambiente doméstico. Porém, diferente de 2018, hoje essa memória é confrontada pela presença física de uma mulher trans, a atriz Fabia Mirassos. Ouvir os ecos de uma moralidade opressora diante de sua materialidade no palco reconfigura a densidade do espetáculo. O passado deixa de ser apenas documento.

No auge da melancolia, quando o elenco entoa Your Song, de Elton John, a peça abandona o lamento solitário. Ao esbravejar que no céu todo mundo é travesti, que não há sexo e todos são iguais, o canto transforma a exclusão em manifesto. O espetáculo existe, fundamentalmente, como um imenso pedido de desculpas erguido em cena. O teatro atua ali como rito de exumação, o passo necessário para devolver a dignidade a quem a história tentou apagar.

Ficha técnica

Companhia: Cia. Mungunzá · Elenco: Fabia Mirassos
Funarte, São Paulo

Compartilhar