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Manifesto

Por Marcelo Fava · 31 AGO 2026
Manifesto

“Tá satisfeito com a vida ou vai mudar alguma coisa?” A frase está escrita no vidro da Kombi de Manifesto. Não lembro se aparece no começo ou no fim do espetáculo. Só sei que saí carregando aquela pergunta, sem resposta pronta, pelo resto da noite, o final de semana inteiro.

Eduardo Marinho, hoje com 65 anos, é quem o espetáculo retrata. Filho de um oficial do Exército, seguiu cedo o caminho que a família esperava dele: aos catorze já trabalhava em banco, depois vieram a Escola Preparatória de Cadetes e um ano de faculdade de Direito. No Exército, entendeu que pensar e ter discernimento não faziam parte da formação — era possível aprender a odiar o comunismo sem nunca ter sido ensinado o que ele de fato significava. No Direito, um júri popular mostrou como dinheiro, mentira e pequenos combinados bastam pra colocar alguém no lugar do culpado e destruir uma vida. Manda quem pode, obedece quem tem juízo.

Aos vinte anos, abandonou tudo e foi viver nas ruas — não por uma única razão, mas por um acúmulo de incômodos que foi tornando aquela vida cada vez mais impossível de sustentar. O pedagogo Paulo Freire chamou esse tipo de ruptura de medo da liberdade. Romper com uma estrutura conhecida pede mais do que coragem, pede abrir mão da segurança de um lugar já sabido. Na rua, aprendeu a olhar de outro jeito pra dinheiro, trabalho, consumo, propriedade e afeto, pras pessoas que antes só via de longe. E viu, de perto, um mundo em que poucos têm muito enquanto muitos têm pouco, sem que isso pareça estranho pra ninguém.

Mais do que a biografia de um homem, a peça deixa a percepção de que existe um mundo pra quem pode escolher romper com ele, e outro, bem maior, pra quem nunca teve caminho nenhum pra largar. Isso não cabe numa bandeira partidária, cabe na ideia mais simples de justiça — ninguém devia nascer preso a um destino só porque nasceu no lugar errado.

A pergunta do vidro deixa de ser sobre Marinho e passa a ser sobre quem a lê. Satisfeito comparado a quem, livre pra mudar comparado a quem — a peça não responde, só expõe a pergunta. O teatro segue sendo meu respiro nesse mundo em queda, mas um respiro não é resposta. Sigo sem resposta pronta também.

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Ficha técnica

Idealização, dramaturgia, codireção e atuação: Lee Taylor – Direção: Georgette Fadel
Elenco: Lee Taylor

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