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Mary Stuart

Por Marcelo Fava · 16 MAR 2026
Mary Stuart

Se você acha que as maiores guerras pelo poder acontecem apenas na política, talvez esteja olhando para o lugar errado. Elas também se insinuam nas amizades, nas reuniões de trabalho e até nos jantares de família. Essa percepção ganha corpo em Mary Stuart, espetáculo interpretado, dirigido e escrito por Denise Stoklos, que retorna em nova temporada. No palco, a rivalidade entre duas rainhas do século XVI vira um espelho desconfortável das disputas que atravessam as relações humanas até hoje.

A montagem nasceu em 1987, quando Stoklos apresentou a peça no La MaMa Experimental Theatre Club, em Nova York, consolidando ali a linguagem que ela chama de Teatro Essencial. Desde então, o espetáculo percorreu mais de 30 países e ganhou versões em sete idiomas, tornando-se um dos trabalhos mais reconhecidos da artista. Ao retomá-lo agora, em um momento simbólico de sua trajetória “aos 75 anos de vida e 57 de carreira”, Stoklos revisita uma obra que marcou sua pesquisa sobre a autonomia do ator.

A proposta cênica é radical na simplicidade. No palco quase vazio, um feixe de luz e uma cadeira bastam. Veludos, castelos e coroas desaparecem. Com corpo, voz e ritmo, a atriz constrói as paredes de uma prisão, corredores de palácio e o peso invisível do poder. É nesse espaço mínimo que surgem Mary Stuart e Elizabeth I, duas figuras centrais da história europeia cuja disputa pelo trono inglês terminou com a execução de Mary em 1587.

Sozinha em cena, Stoklos alterna as duas monarcas com fúria, ironia e um humor que provoca risadas nervosas antes de revelar algo mais duro: a solidão do poder e a dificuldade de encontro real entre as pessoas. O conflito histórico vira metáfora contemporânea. No fundo, a peça pergunta por que ainda insistimos em medir forças em vez de aprender a conviver. Talvez seja por isso que Mary Stuart continue tão atual. Porque a lógica da disputa não ficou nos palácios: ela ainda habita nossas relações cotidianas.

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