Meu Corpo Está Aqui
Aprendemos a desejar antes de aprender a explicar por quê. Talvez por isso a atração pareça instinto. Antes de saber dizer o que nos interessa, alguma coisa já aconteceu: um corpo, uma voz, um jeito de andar, de sentar, de olhar. Ao longo da vida, vamos acumulando imagens sem perceber: pessoas escolhidas, corpos que aparecem nas telas, nas revistas, nos aplicativos. Esse repertório também participa daquilo que reconhecemos como desejável.
E se Branca de Neve tivesse transado com os sete anões? É uma pergunta engraçada até o momento em que deixa de ser. Os corpos dos anões cabem facilmente no humor, no afeto, na fantasia infantil. No desejo, não cabem mais com a mesma facilidade.
Há histórias em que a atração começa pelo cheiro, pelo tom de voz, pela maneira de falar, pela demora de uma resposta, antes mesmo de um rosto entrar na escolha. Em outra, aparece a procura por afeto dentro de uma comunidade que também produz suas próprias preferências. São experiências diferentes, mas caminham para a mesma pergunta: o que nos faz desejar alguém? Robert Zajonc chamou de efeito de mera exposição a tendência de preferir o que encontramos repetidamente. Talvez isso ajude a entender por que alguns corpos nos parecem familiares ao desejo e outros quase nunca aparecem nesse lugar.
É nesse ponto que Meu Corpo Está Aqui me instiga. A peça não coloca pessoas PCDs do lado de fora daquilo que costumamos chamar de vida. Elas falam de sexo, atração, afeto, rejeição, fantasia, relacionamento. A deficiência está ali, mas é só uma camada entre tantas que formam uma pessoa. O desejo não aparece como prêmio depois de vencer uma dificuldade — está ali, e pronto.
No fim, a quarta parede cai. Quem passou a noite contando essas histórias vira pra nós e aplaude. Chamam a plateia de guerreira, de especial, de exemplo de superação — palavras que, até então, pareciam pertencer ao outro lado. Ainda estou processando o que ouvi quando a plateia já está de pé aplaudindo. Fico sentado mais um instante.
Ficha técnica
Texto e direção: Julia Spadaccini e Clara Kutner
Elenco: Bruno Ramos, Juliana Caldas, Pedro Fernandes e Sara Bentes