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Meu Pai, Hamlet

Por Marcelo Fava · 29 MAI 2026
Meu Pai, Hamlet

Cresci nos anos 1990 assistindo à queda de Mufasa. Para a minha geração, o primeiro contato com o medo da perda não veio de uma tragédia clássica, mas de Bambi e de O Rei Leão. O pavor de ver o pai sumir antes de aprender a língua dele fica guardado como uma contagem regressiva silenciosa.

Em “Meu Pai, Hamlet”, Julia Pedreira não quis esperar o fantasma. Ela trouxe o próprio pai, Marco Monteiro, para o palco. Quando a voz dele preenche o espaço, Mufasa e o rei dinamarquês se encontram no mesmo lugar: pais que só falam depois que morrem.

O que os dois constroem ali amarra memórias distintas para enfrentar a finitude. Em 2021, o isolamento forçou pai e filha a voltarem a morar juntos. O que começou como companhia virou troca, e a troca virou peça. O garoto que andava de skate pelas ladeiras da Vila Gumercindo em 1974 é o homem que, pouco depois, comprou um par de baquetas para tentar a vida na música erudita. A filha cresceu sob o trauma pop da savana e com um relógio sem números dado por ele: um mostrador limpo que serve apenas para aferir a presença.

Sob a direção de João Turchi e Miguel Antunes Ramos, a cena escapa da homenagem fácil por uma inversão prática. Ela o coloca para atuar. Ele encara o “ser ou não ser” de Shakespeare, monólogo que logo cede espaço para o conselho do espírito de Mufasa ao filho. Ela assume as baquetas para encarar a complexidade rítmica de Stravinsky e ampara os improvisos do pai enquanto segura o ritmo da engrenagem. Dois corpos tateando o desconhecido, dentro da história um do outro.

Tímpanos orquestrais e um skate dividem o mesmo espaço. O tropeço na execução ou a hesitação no texto não figuram como defeitos. São a matéria do encontro. A dificuldade exposta é o que justifica o cuidado e alarga o tempo deles juntos.

No final, Marco lê Fernando Pessoa com a gravidade de quem fala para o próprio pai, convocando o avô de Julia para a plateia. Um retrato de quem envelhece sob o olhar de quem fica.

Saí de lá pensando no meu pai. Na língua dele que talvez eu tenha desistido de aprender.

Ficha técnica

Com: Julia Pedreira e Marco Monteiro · Direção: João Turchi e Miguel Antunes Ramos
Teatro Estúdio, São Paulo

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