Mobiliado
Sobrado de 216 metros quadrados, três quartos, uma suíte e uma vaga na zona oeste da cidade. O valor ultrapassa sete dígitos, vendido mobiliado, nada pode ser removido ou alterado. O que o classificado não anuncia é o pé-direito generoso, a geometria das sombras que rastejam pelos cômodos no fim da tarde e a percepção fria de que o ambiente estuda quem cruza a soleira.
Donald Winnicott descreveu o objeto transicional como a primeira extensão criativa do eu, material no mundo real, mas cujo valor é inventado por quem o criou. A saúde psíquica exige que esse objeto seja abandonado, não esquecido, apenas desinvestido. Quando isso não acontece, o sujeito se cristaliza ao redor do objeto e constrói estruturas para justificar a permanência.
Antonio Peyri escreveu três peças dentro da mesma casa, fazendo a trilogia inteira orbitar os mesmos cômodos. Em Mobiliado, os quadros nas paredes são seus e os nomes dos personagens são reais. Os personagens operam dentro de um espaço que o autor nunca conseguiu abandonar. A peça não é uma ficção ambientada em uma casa, mas a própria casa recusando ser ficção.
Uma corretora prepara o imóvel para um possível comprador e o ritual obedece à cartilha comercial com passos lentos pelo piso de taco, o inventário do espaço e a farsa de que o metro quadrado pode ser domesticado e convertido em posse. A noite cai, a metrópole sofre um apagamento, o sinal de telefone morre e as fechaduras tornam-se inúteis. Os estalos surgem do interior do concreto e das tubulações antigas. Corretora e cliente não conduzem mais a situação e simplesmente afundam nela.
A moradia subverte sua finalidade milenar de garantir abrigo e a casa não se limita a guardar o passado porque ela tem fome. A peça não termina com uma venda, mas com uma captura, não da corretora ou do comprador, e sim do próprio autor.
Quando a arte e a vida estão no mesmo cômodo, você percebe que não está assistindo a uma peça e sim dentro de uma memória. Quem projetou a casa faleceu em 1946. O que veio depois, a memória, o afeto e a recusa em abandonar, não estava no projeto original. Isso Peyri construiu sozinho.
A casa está à venda, mobiliada.
Ficha técnica
Dramaturgia e direção: Antonio Peyri · Elenco: Anette Naiman e Rodrigo Melgaço
Casa 58 Cultural, São Paulo