Não Fossem as Sílabas do Sábado
O peso de um grande prêmio literário poderia facilmente engessar qualquer adaptação. A transposição do romance de Mariana Salomão Carrara para o palco com dramaturgia de Liana Ferraz, trabalho reconhecido com o Prêmio Shell de Dramaturgia, segue pelo caminho oposto. Em vez de reverência excessiva há liberdade. O texto preserva a densidade emocional da obra original e abre espaço para um humor ácido que surge nos momentos mais inesperados. A tragédia quando observada de perto revela contornos quase absurdos.
Ana e Madalena moram no mesmo prédio mas mal se conheciam até que um triste acontecimento redefine suas trajetórias: o marido de Madalena se joga da janela e cai sobre o marido de Ana. A partir desse episódio nasce um vínculo paradoxal onde o que as aproxima é também o que as separa. Entre o choque, o luto e a necessidade de reorganizar a vida, acompanhamos a construção de uma relação atravessada pela dor, pela chegada de uma criança e pelos desafios do recomeço. Não se trata de uma amizade idealizada mas de uma aliança construída na experiência compartilhada da perda e uma redefinição possível de família.
A encenação aposta no essencial. O cenário minimalista e o figurino contido deixam o palco quase despido e deslocam o foco para o conflito interno da protagonista. O fluxo de consciência de Ana estrutura a narrativa expondo memórias fragmentadas, pensamentos obsessivos e tentativas de dar sentido ao que restou. Ao evitar o sentimentalismo fácil a peça encontra sua força e equilibra brutalidade e delicadeza. Fica a impressão final de que quando tudo desaba, a única estrutura possível é aquela construída entre pessoas que compartilham a mesma perda.
Ficha técnica
Direção: Joana Doria · Elenco: Carol Vidotti, Fabia Mirassos · Dramaturgia: Liana Ferraz · Autora do livro: Mariana Salomão Carrara
Centro Cultural São Paulo