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O Céu da Língua

Por Marcelo Fava · 11 FEV 2026
O Céu da Língua

Em “O Céu da Língua”, Gregorio Duvivier e Luciana Paes realizam uma proeza poética, transformando a etimologia em um espetáculo de arena arrebatador. Longe de ser apenas um monólogo, é um ritual coletivo que atraiu 167.000 espectadores, culminando no impactante cenário do Espaço Unimed. Aqui, a Língua Portuguesa transcende sua posição tradicional como mera disciplina escolar, emergindo como a protagonista absoluta: uma pátria vibrante e inesperadamente divertida.

A direção segue um caminho oposto à ostentação das telas 4K, abraçando com carinho a estética analógica. O palco se transforma em uma página em branco pronta para ser preenchida pelas tintas e líquidos que Theodora Duvivier manipula ao vivo no retroprojetor. Essa abordagem artesanal ganha vida com a presença do contrabaixo de Pedro Aune, em um diálogo íntimo com o texto. O figurino encapsula essa fusão de elementos: um toque elisabetano envolto em uma jaqueta esportiva. A tradição e a informalidade se entrelaçam em perfeita harmonia.

A peça age como um Cavalo de Troia dos sentidos. Inicialmente nos cativa com risadas, para depois nos arrebatar com a poesia. Duvivier arranca sorrisos ao examinar palavras que têm uma breve existência, como a já esquecida “motociata”. Este termo efêmero desapareceu quando a realidade que o sustentava perdeu o sentido. Uma prova linguística de que o esquecimento pode, de fato, representar uma forma de evolução.

Saímos do espetáculo com a sensação tangível do peso e do sabor das palavras. Não se trata apenas de uma aula, mas de uma experiência compartilhada e profunda. Se a boca marca os limites do corpo, a língua representa o céu onde todos nós habitamos. Uma obra inteligente que nos relembra que a palavra continua sendo nosso mais valioso patrimônio.

Ficha técnica

Espaço Unimed, São Paulo

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