O Diabo com Tetas
Em 1992, a Itália descobriu que tinha heróis de toga. A Mani Pulite prendia políticos ao vivo, desmontava partidos e produzia magistrados como personagens morais da vida pública. O vácuo que deixou foi preenchido por Berlusconi. Em 1997, com a poeira ainda no ar, Dario Fo escrevia uma farsa sobre um juiz famoso por ser impossível de corromper. No mesmo ano, recebia o Nobel de Literatura. Não era coincidência de calendário.
A Commedia dell’Arte é uma tradição teatral italiana que usa máscaras de couro, uma língua inventada chamada gramelô, jogo físico e música ao vivo. É a base de O Diabo com Tetas. Na trama, a elite contrata o diabo para corromper o magistrado pelo corpo, o único caminho que reconhece. O diabo erra o alvo na escuridão e termina possuindo a empregada — aquela que jamais ocuparia o centro da notícia. É ela quem desmonta o tribunal. O poder não cai pelo ataque direto. Cai pelo erro que ninguém previu.
Tenho resistências a certos tipos de teatro. Humor, musical, linguagem física exuberante. Entrei com reservas. Saí entendendo que, aqui, a encenação pensa politicamente do começo ao fim.
Foi impossível não pensar na Lava Jato. Ela produziu a mesma figura que a Mani Pulite: juízes elevados à condição de referências morais da vida pública. Heróis de toga que prendiam ao vivo e trocavam estratégias com a acusação por mensagem — conversas reveladas pela Operação Spoofing e que levaram o STF a declarar a parcialidade de Moro em 2021. As condenações de Odebrecht, Dirceu e Palocci deixaram de produzir efeitos entre 2023 e 2025. Não a corrupção que a operação investigava — a encenação da imparcialidade.
Na montagem brasileira, uma sanfona nordestina atravessa a farsa italiana do século XVI. O trabalhador migrante entra no lugar do servo da Commedia. Dario Fo disse sobre a peça: “qualquer semelhança com as notícias dos dias de hoje é mera coincidência. Os antigos sempre copiaram descaradamente escândalos dos eventos atuais.”
Ficha técnica
Dramaturgia: Dario Fo | Direção Geral: Augusto Marin
Elenco: Augusto Marin, Armando Liguori Junior, Natalia Albuk, Carlos Capelette, Fabrício Garelli, Juliano Dip, Isabela Prado, Mariana Blanski, Fabio Godinho
Direção Musical: Sérvulo Augusto | Músicos ao vivo: Paulo Dantas e Pedro Mendes | Máscaras: Helo Cardoso | Movimento: Valéria Franco
Teatro Commune, São Paulo | Temporada: 1 mai a 28 jun 2026