O Filho de Mil Homens
Tudo começa na palavra. Nasce da poesia de Valter Hugo Mãe, uma literatura que não pede só leitura, pede morada. Ao assumir a missão de traduzir esse lirismo pro cinema, Daniel Rezende entende que vai ter de filmar o que não é dito. A história se materializa em Crisóstomo, pescador de silêncios profundos vivido por Rodrigo Santoro, que habita um “não-lugar” entre o mar e o nada. Diferente do livro, onde sua origem é mistério, aqui ele carrega um passado “não-tradicional”, puro justamente por nunca ter sido codificado pelas regras de dureza que o mundo impõe aos homens.
Aos 40 anos, sentindo o peso do vazio, Crisóstomo decide que a solidão não é destino, é intervalo. A trama se expande: sua pureza imanta outras almas quebradas — Camilo, o órfão; Isaura, que foge da violência; Antonino, rejeitado pela própria natureza. O que assistimos é a costura invisível de uma família se formando na tela, “desajustados” que descobrem que ninguém conserta ninguém, mas que é possível se reconstruir no olhar do outro.
E é assim que a obra nos captura. Eram duas da manhã de uma quinta-feira quando o filme cobrou seu preço emocional. O desfecho é puro golpe de catarse.
No momento final, quando a mãe toca o ombro do filho, cercada pela presença simbólica daqueles “mil homens” (a imensidão de afetos que nos constitui), a armadura cai. A gente desaba, aos prantos, na madrugada, entendendo a arquitetura do afeto que o filme constrói: família como a mão que impede alguém de afundar no oceano à frente.
Ficha técnica
Direção: Daniel Rezende · Baseado na obra de Valter Hugo Mãe · Elenco: Rodrigo Santoro