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O Filho

Por Marcelo Fava · 25 FEV 2026
O Filho

Um estrondo invisível atravessa a plateia e suspende a respiração coletiva. É assim que a realidade se impõe em “O Filho”, de Florian Zeller, sem anestesia e sem concessões. A obra encerra a trilogia iniciada com “O Pai” e “A Mãe”, reafirmando a habilidade quase cruel do dramaturgo francês em cartografar fraturas íntimas. Aqui não há redenção reconfortante, apenas um espelho incômodo da fragilidade psíquica e da falência afetiva.

A montagem de Léo Stefanini, amparada pela tradução precisa de Carol Gonzales, compreende o peso do texto e abandona o distanciamento europeu para instalar a ação no território das nossas próprias ruínas domésticas. Vemos um pai obstinado em consertar o afeto à força e uma mãe exausta, consumida pelos escombros de um casamento que ruiu. Eles não são vilões, mas adultos insuficientes diante do abismo.

No centro da trama está Nicolas. Sua dor não responde a sermões ou à lógica produtivista do “reaja”. Aos dezesseis anos, ele carrega uma apatia que paralisa o corpo e esvazia o olhar. A tentativa de mudar de casa funciona como uma fuga geográfica ilusória para um desequilíbrio químico profundo. A peça não trata a depressão como metáfora, mas expõe a doença como sintoma de um afeto negligenciado, esmagado por separações mal resolvidas e pela pressa egoísta de seguir adiante.

O desfecho não busca o choque gratuito, e sim a consequência trágica de uma família rompida. A promessa de melhora se dissolve no ar, deixando como herança o peso sufocante de uma ausência definitiva. Saí do teatro com uma certeza incômoda: o silêncio de quem desiste nunca é discreto. Ele grita, denunciando a nossa incapacidade coletiva de enxergar quem desmorona ao nosso lado.

Ficha técnica

Direção: Léo Stefanini · Tradução e Adaptação: Carol Gonzales
Elenco: Andreas Trotta (Nicolas), Gabriel Braga Nunes (Pai), Maria Ribeiro (Mãe), Thais Lago (Madrasta), Marcio Marinello, Luciano Schwab
Sesc Guarulhos (SP) · Theatro Pedro II (Interior)

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