O Motociclista no Globo da Morte
Levei mais de um ano para conseguir assistir a O Motociclista no Globo da Morte. Consegui em um domingo atípico, enquanto a cidade acompanhava a final da Copa do Mundo. Saí da apresentação sem conseguir organizar o que tinha visto. Restou um incômodo que eu não soube nomear naquele momento.
No palco, não há distrações. Uma poltrona, uma mesa e um copo de água formam todo o ambiente. A peça se apoia na palavra e no corpo de Eduardo Moscovis, sozinho em cena. Antônio, um matemático afeito à lógica e à rotina, reconstrói um acontecimento banal, num bar de esquina. Não há cenários. Cabe ao público imaginar cada rosto, cada espaço, cada gesto.
Aos poucos, o título deixa de parecer apenas uma referência ao circo. O Globo da Morte passa a sugerir um sistema em movimento, sustentado por um equilíbrio que parece estável até que um desvio mínimo o compromete. Antônio interrompe o relato e dirige a palavra à plateia. Já não fala apenas da própria história. Fala da nossa disposição para consumir aquele relato, comentá-lo e transformá-lo em um caso para contar depois. Até aquele instante eu observava Antônio. Quando ele devolve o olhar à plateia, percebo que a peça também nos observa. O lugar confortável de quem apenas acompanha a história deixa de existir.
O incômodo continuou. A pesquisa me levou da psicanálise a diferentes reflexões sobre a violência e o comportamento humano. As abordagens eram distintas, mas convergiam para um mesmo movimento. A violência raramente permanece onde nasce; procura uma justificativa, encontra um novo destino e continua circulando. Não busquei essas leituras para explicar a peça. Foi a obra que tornou a pesquisa inevitável. Compreendi que observar também é ocupar um lugar dentro da história.
Quando as luzes se apagam, o que permanece comigo não é a lembrança de um acontecimento específico, mas a imagem de Antônio sentado em silêncio, segurando um copo vazio. Dias depois, percebi que aquele silêncio já não pertencia apenas ao palco. De alguma forma, encontrou lugar também em mim.
Ficha técnica
Texto: Leonardo Netto · Direção: Rodrigo Portella
Elenco: Eduardo Moscovis