O Retorno
A proposta do norueguês Fredrik Brattberg em O Retorno passa longe da purificação. Em cartaz no Sesc Santana, a peça prefere triturar o sentimentalismo até sobrar apenas o pó. A direção de José Roberto Jardim transforma a obra em uma máquina de tortura onde o luto de um casal é interrompido pela volta do filho morto.
Pode parecer um milagre na primeira vez. Mas o garoto volta e morre de novo em um ciclo sem fim. A sacralidade da ressurreição vira apenas uma burocracia insuportável e a tragédia deixa de ser a morte para se tornar a interrupção do jantar.
A “meta-realidade” deixa de ser conceito no palco e vira desconforto físico. Mãe e filho na vida real, Helena Ranaldi e Pedro Waddington encenam esse ciclo vicioso. O público vira voyeur de uma intimidade genética que a ficção não consegue disfarçar. Ranaldi despe-se da vaidade televisiva para vestir uma histeria contida enquanto Leonardo Medeiros ancora o delírio com um pragmatismo desconcertante. O pai tenta resolver a ressurreição do filho com a mesma gravidade de quem lida com um vazamento na pia ou um problema de condomínio.
Não há onde se esconder e a caixa preta recusa o conforto. A luz de Aline Santini não ilumina e prefere interrogar. É uma claridade exata e dura que cria isolamentos psíquicos amplificados pelo som e pelas projeções do Coletivo Bijari. O teatro treme com a frequência do glitch e a plateia sente nos ossos o desgaste daquele silêncio pesado.
O final entrega um veredito cínico sobre a condição humana e mostra que o amor incondicional é uma ficção incapaz de aguentar a falta de sossego. Deixamos a sala com o peso da exaustão e a certeza de que até o maior dos milagres pode virar uma tarefa doméstica que preferiríamos não cumprir se repetido em excesso.
Ficha técnica
Direção: José Roberto Jardim · Elenco: Helena Ranaldi, Leonardo Medeiros e Pedro Waddington
Sesc Santana – Av. Luiz Dumont Villares, 579