Oleanna
Saí da sala, olhei para o Mah e a Fabi e cada um já tinha um lado. Lembro de ter dito: leiam o folder de novo. Sem aquela leitura prévia, você entra em Oleanna já inclinado a escolher quem tem razão. David Mamet prende um professor e uma aluna dentro de um escritório. Uma dúvida acadêmica se transforma em acusação de assédio, e a disputa deixa de ser sobre o que aconteceu para girar em torno de quem consegue definir o que aconteceu.
Carol chega sem falar a língua de John. Não por falta de inteligência, mas de capital. O vocabulário acadêmico funciona como senha de um clube ao qual ela ainda não pertence. Ela tenta explicar o que sente, é interrompida, corrigida, conduzida. Depois volta falando outra língua, a do comitê, da denúncia, do protocolo. O jogo muda porque ela aprende a operar as regras da mesma instituição que antes a excluía.
John passa a peça criticando a universidade e defendendo relações menos hierárquicas entre professor e aluno. Paulo Freire certamente reconheceria ali o desejo de uma pedagogia libertadora. O problema é que John nunca abre mão do lugar de quem decide. Oferece ajuda nos próprios termos, distribui favores, atende o telefone para resolver a compra da casa enquanto Carol tenta ser ouvida. O conforto que o sistema lhe oferece atravessa cada discurso que faz contra ele.
A montagem amplia esse conflito. São cinquenta pessoas divididas em duas fileiras frente a frente, com a ação acontecendo no corredor entre elas. Enquanto olho para a cena, também vejo o rosto de quem está do outro lado.
Quando pedi para o Mah e a Fabi relerem o folder, percebi que a questão nunca foi descobrir quem tinha razão. Era entender por que cada um de nós já tinha chegado com uma resposta. Carol vence a disputa, mas Fanon e bell hooks ficaram martelando na minha cabeça o tempo todo. Trocar quem ocupa o poder não muda sua lógica. A bagagem que carregamos, de classe, de linguagem, de acesso e das relações que tivemos com o poder, atravessa a forma como assistimos à peça. No fim, Oleanna revela menos sobre John e Carol do que sobre quem está sentado na plateia.
Ficha técnica
Texto: David Mamet · Tradução: Velson D’Souza · Direção: Daniela Stirbulov
Elenco: Velson D’Souza (John) e Julianna Gerais / Lara Mendes (Carol)
Teatro Vivo (Vila Cordeiro), São Paulo · Temporada: 10/04 a 19/07/2026