Ópera do Malandro
Quando Chico Buarque rabiscou a Ópera do Malandro em 1978, o ar pesava chumbo. O texto precisou nascer em código para driblar a censura, respirando pelas esquinas obscuras da Lapa. Quase meio século depois, o diretor Jorge Farjalla resgata essa partitura e a joga no asfalto fervente do nosso tempo. As navalhas de ontem viraram as milícias de hoje. É outra época, mas a ferida nacional continua sangrando do mesmo jeito.
A trama nos puxa pelo colarinho para um embate sujo. De um lado, Max abandona o terno de linho para encarnar um sobrevivente cru das ruas. Do outro, o cafetão Duran e sua esposa, Vitória, administram bordéis de fachada e a moralidade alheia. O casamento clandestino de Max com Teresinha acende o estopim de uma guerra. Farjalla veste essa disputa com axé, terreiro, malemolência carioca e cheiro cortante de cachaça. O boêmio idealizado sai de cena; toma o palco a crueza de quem sorri com a navalha no bolso.
O deboche contra a “Família, Tradição e Propriedade” atinge o osso, escancarando os senhores engravatados que escondem sujeiras sob discursos morais. A respiração do teatro muda quando Valéria Barcellos assume o holofote. Ver uma atriz trans no centro do palco, cantando Geni e paralisando o espetáculo com aplausos de pé, é um acontecimento histórico. É um espelho afiado, devolvendo o reflexo do Brasil que a gente cruza na rua, mas finge não enxergar.
Quando as luzes se apagam, algo é óbvio: não devemos um milímetro em estrutura ou afinação às superproduções estrangeiras. A diferença é que a nossa tem sangue nas veias, tem pulso. A montagem esfrega na cara que o musical brasileiro sabe ser colossal, mantendo sua raiz. Mais do que a técnica, é a força atemporal do texto de Chico que sustenta essa arquitetura, ecoando um país profundo.
Ficha técnica
Direção: Jorge Farjalla · Elenco: José Loreto (Max), Carol G. Costa (Teresinha), Totia Meireles (Vitória Régia), Ernani Moraes (Duran), Amaury Lorenzo (Delegado Chaves), Valéria Barcellos (Geni)
Teatro Renault, São Paulo