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Prazer, Zezé!

Por Marcelo Fava · 03 ABR 2026
Prazer, Zezé!

O tempo no palco dispensa a cronologia para sobrepor as muitas versões de Zezé Motta, revelando uma história enraizada no afeto doméstico e longe de uma biografia pacificada. Em um espaço despido de excessos, o musical mostra que a base da artista nasceu entre o corte preciso da mãe, modista, e o virtuosismo sonoro do pai. Foi ali que se desenhou a mulher capaz de expandir as fronteiras da cultura nacional e quebrar a moldura estreita imposta pelo mercado.

O Brasil lá fora, asfixiado pela ditadura, reservava às mulheres negras o lugar da subalternidade. A montagem traduz esse atrito ao exigir do elenco uma presença em que a voz opera como tomada de posição. Ao evocar o fervor de Roda Viva e o clamor dos movimentos negros, a direção resgata essas vivências da sombra e lhes devolve o protagonismo narrativo.

Quando a consagração chegou com Xica da Silva, surgiu o risco iminente de a artista ser consumida pelo mito. A dramaturgia de Toni Brandão expõe com nitidez como a indústria tentou vender o corpo da personagem enquanto buscava domesticar a inteligência de sua intérprete. Em cena, a atriz Larissa Noel assume a missão de evocar essa densidade, blindada pela mesma consciência política que Zezé construiu em seu enfrentamento cotidiano.

Esse alicerce criativo é sustentado por profundas matrizes africanas. Xangô e Oxum não entram como adereços estéticos, mas como o fundamento ético que ergue a movimentação do elenco e a própria encenação — uma sabedoria viva que permanece de pé contra os silenciamentos do entretenimento comercial.

Celebrar Zezé vai além da simples homenagem; é um reconhecimento de raízes. Aos 81 anos, ter seus caminhos cantados e defendidos com paixão por novas gerações, sob os holofotes, honra quem superou o esquecimento. O espetáculo confirma que, muito além de resistir às contradições históricas, ela ensinou o país a enxergar e admirar a beleza que antes preferia ignorar.

Ficha técnica

Dramaturgia: Toni Brandão · Elenco: Larissa Noel (Zezé Motta) · Direção de arte: Billy Castilho

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