Sidarta
Já devo ter falado por aqui que não costumo pesquisar antes de ver uma peça. Nem ator, nem ficha técnica, nem entrevista. Num tempo em que quase tudo chega adiantado, prefiro ir ao teatro atrás daquilo que ainda não sei. Dessa vez, porém, uma informação furou essa regra. Poucos dias antes de ver Sidarta, comentei com um amigo que também iria. Ele segue o ator nas redes e me contou que Angel Ferreira havia deixado o Rio de Janeiro e hoje vive num ônibus, sem luz elétrica nem rede de esgoto, no interior de Goiás. Entrei na sala carregando algo que normalmente não teria.
Quando a sala abriu, Angel já estava no palco, meditando enquanto o público ainda procurava lugar. Eu, que não consigo passar alguns minutos sentado sem mudar de posição, devo ter me mexido umas trinta vezes. Só de pensar em ficar parado daquele jeito minha lombar já reclamava. Ele permanecia ali, sem pressa, até a sessão começar.
Angel Ferreira é o nome que adotou no fim de 2024, depois de anos trabalhando como Igor Angelkorte, inclusive em novelas. Trocou o Rio por um ônibus em Cavalcante, na Chapada dos Veadeiros, mas não parou de atuar, seguiu viajando e se apresentando com a peça. Em entrevistas, ele próprio recusa a ideia de que tenha escolhido uma vida de asceta. Para ele, libertar-se do materialismo não significa abdicar da vida material. A distinção é importante porque o caminho de Sidarta também não se resume a abandonar o mundo.
Livremente inspirado no romance de Hermann Hesse, o espetáculo acompanha um homem que passa boa parte da vida procurando respostas em mestres, doutrinas, experiências, até perceber que nenhuma delas tinha o que ele procurava. No fim, encontra alguma paz ouvindo o rio. Hesse chegou a esse final depois de uma viagem rumo à Índia, em 1911, que ele nem chegou a alcançar. Se a experiência não lhe deu resposta, a ficção permitiu que ele levasse Sidarta até uma.
Quando penso na sessão, volto àquela primeira imagem. Angel sentado, imóvel, enquanto o público ainda se acomodava, e eu mudando de posição pela trigésima vez. Ainda não sei quanto daquela imobilidade pertencia ao ator, ao personagem ou à própria peça. Talvez isso não importasse.
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Ficha técnica
Texto e atuação: Angel Ferreira – Direção colaborativa: Beth Martins e Renato Livera
Elenco: Angel Ferreira