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Sou o Outro do Outro — Es Devlin

Por Marcelo Fava · 20 MAR 2026
Sou o Outro do Outro — Es Devlin

Por mais de três décadas, a britânica Es Devlin desenhou espetáculos monumentais pelo mundo. Na Casa Bradesco, a escala é outra. Em Sou o Outro do Outro, concebida para o concreto paulistano, a artista subverte a lógica das multidões de seus grandes shows para impor uma intimidade quase claustrofóbica. O espaço não testa os limites físicos do público, mas expõe a fragilidade da nossa autonomia.

O percurso proposto pela artista materializa o peso da herança coletiva. Ao amalgamar o corpo do espectador a uma estrutura suspensa contra a luz, Devlin transforma a solidão intelectual em uma experiência mecânica e orgânica: somos lembrados de que fazemos parte de uma engrenagem que antecede a nossa própria existência.

Quando a escuridão domina, cortada por um feixe solitário, recria-se a vertigem de um desequilíbrio íntimo. O chão parece sumir numa suspensão que beira a falta de ar, a paralisia silenciosa de quem está entre o que foi e o que está prestes a ser.

Nesse fluxo, o uso da superfície refletora recusa o contorno pacificado a que estamos habituados. Em vez de uma imagem inteira, a geometria estilhaça o rosto do observador. Nesse jogo óptico, a individualidade perde a coesão, forçando o público a buscar o próprio prumo nos reflexos de quem o cerca.

O retorno ao asfalto acontece com um fragmento impresso nas mãos. Esse papel levado para a rua funciona menos como um souvenir da exposição e mais como um recibo físico de nossa interdependência: a materialização de que somos, afinal, feitos do eco e do contorno de quem caminha ao nosso lado.

Ficha técnica

Artista: Es Devlin · Casa Bradesco, São Paulo

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