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Tangos Brasileiros

Por Marcelo Fava · 14 ABR 2026
Tangos Brasileiros

Nascer na divisa com a Argentina transforma o tango num idioma absorvido quase por gravidade. A milonga nunca precisou de tradução para quem vem dessa beira de fronteira, é uma cadência que se entende antes de qualquer esforço consciente. Reencontrar esse vínculo no palco, guiado pelo bandoneón de Thadeu Romano, foi como encontrar uma memória que não sabia que carregava.

O repertório confirmou o título e foi além. Tangos brasileiros de fato, mas também composições próprias que surpreenderam pela sensibilidade e pelo acabamento. No palco, três personalidades em atrito e cumplicidade. Catto carrega uma melancolia afiada, onde moda, voz e identidade se fundem num glamour que desestabiliza. Ju Santtos traz o chão, a ancestralidade, a força telúrica de quem carrega a memória dos terreiros e das grandes damas do rádio brasileiro. Edson Cordeiro suspende o tempo, contratenor anacrônico, agudos febris que não deixam saída, uma voz que parece ter atravessado séculos para chegar ali. Entre os três, a diferença não criou atrito, criou textura.

Um gênero forjado na rigidez patriarcal, devolvido ao mundo pelas mãos de quem ele sempre silenciou. Três artistas da comunidade LGBTQ+ no centro do palco, isso já é político antes de qualquer nota. Corpos dissidentes que não precisaram explicar nada, apenas existir e cantar. A tradição só pulsa de verdade quando se deixa habitar pelas existências do agora.

Ficha técnica

Com: Thadeu Romano, Catto, Ju Santtos e Edson Cordeiro

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