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Tom Jobim Musical

Por Marcelo Fava · 23 JUN 2026
Tom Jobim Musical

Texto denso, político e que possua conteúdo suficiente para me deixar digerindo a obra por dias. Musical, como regra, não costuma ser meu gênero. O musical brasileiro é exceção, pelo contexto histórico e pela identificação que carrega. A convite do Leopoldo, assisti ao “Tom Jobim Musical”.

A história acompanha o nascimento da amizade entre Tom e Vinicius. Pesquisando sobre a obra, encontrei a cenografia de “Orfeu da Conceição”, citada na peça, montagem de 1956 que reuniu os dois pela primeira vez, com cenário de Oscar Niemeyer. Tom também estudou arquitetura antes de abandonar o curso pela música. Não deixa de fazer sentido que essa parceria surja no teatro, atravessada pela cenografia e pela arquitetura. A própria montagem mantém a orquestra no palco, à vista, como parte da cena.

A Bossa Nova nasce ligada a uma ideia de país moderno. Juscelino Kubitschek, apelidado de “Presidente Bossa Nova”, encontra naquela música do Rio uma tradução sonora para esse projeto. Até então, o Brasil exportava exotismo e tropicalidade de cartão-postal. Tom e Vinicius criam uma linguagem própria, capaz de circular pelo mundo sem imitar outra. Em 1962, essa linguagem chega ao Carnegie Hall, no primeiro grande concerto de Bossa Nova fora do Brasil. Daquela noite nasce o encontro que leva ao disco “Getz/Gilberto”, premiado no Grammy. Cinco anos depois, Tom grava com Frank Sinatra: as canções circulam fora sem deixar de soar brasileiras.

Tom, Cazuza, Elis Regina, Tim Maia, Rita Lee. Não precisamos de legenda para saber quem são. Já chegamos ao encontro carregando essas referências. Esses musicais não apresentam um universo novo; reorganizam uma memória que já faz parte da nossa vida. O gesto político não está apenas em passar quase três horas sem olhar para o celular. Está em reunir uma sala inteira para escutar, junto, canções que atravessaram gerações. A Bossa Nova pedia atenção. O palco ainda pede.

Entramos sabendo as canções de cor. O que volta não é apenas a trajetória de Tom Jobim, mas algo que se renova a cada revisita, uma memória compartilhada que já existia antes deles, nas nossas próprias casas.

Ficha técnica

Teatro Bradesco, São Paulo

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