Tráfico
Há corpos que parecem nascer com prazo de validade. O destino de Alex não é um acidente de percurso, mas o sintoma de uma orfandade crônica. A mãe que parte cedo e o pai que oferece apenas a ausência inauguram um vazio que o Estado se limita a observar. No Brasil, a cada 25 minutos uma criança é abandonada. Sem amparo, a rua vira casa, escola e lei.
É na própria vulnerabilidade que o personagem descobre sua moeda de troca. Alex é garoto de programa que atende homens, cobra pelo que oferece e carrega sozinho a contradição de quem encena uma masculinidade que o próprio trabalho contradiz. Sob a dureza existe uma carência que nunca encontrou outro endereço porque o mercado formal nunca abriu uma porta — o corpo foi o único capital disponível. Ele sabe que é desejado e em cena conduz a sedução como quem aprendeu cedo onde estava o preço. Ao redor, espelhos refletem esse corpo encurralado numa estrutura de ferro que evoca a carcaça de uma moto, o fetiche que o move e o condena.
O francês chega como quem salva. Dá a moto, abre portas e induz o crime como quem sugere uma aventura. Quando Alex leva a sério o que lhe foi ensinado, o europeu recua alegando que era só uma parábola. O submundo, ao menos, não finge: oferece a única matemática que fecha para quem foi ensinado que cuidado é transação, e o jovem não cai na violência por escolha — ele é conduzido para ela desde o primeiro dia.
O único momento em que pareceu livre foi o último. Quando a luz acende o palco está vazio, só o capacete e a jaqueta no chão. Uma memória do que ele foi.
Enquanto você leu este texto, ao menos um jovem foi assassinado no Brasil.
Ficha técnica
Dramaturgia: Sergio Blanco · Elenco: Robson Torinni, Victor Garcia Peralta
Teatro Estúdio, São Paulo