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Tragédia Linche Vol. I — Os Jovens Infelizes

Por Marcelo Fava · 07 MAI 2026
Tragédia Linche Vol. I — Os Jovens Infelizes

Na lógica da tragédia grega, a sina opera por uma condenação genealógica: os filhos estão predestinados a herdar a culpa dos pais. A constatação de Pier Paolo Pasolini sobre o teatro antigo atua como premissa para “Tragédia Linche Vol. I: Os Jovens Infelizes”. O diretor José Fernando Peixoto de Azevedo apropria-se desse conceito clássico e o converte em um reflexo do Brasil. O fardo imposto à nova geração não resulta de uma punição divina, mas de um projeto histórico de letalidade estatal que delega o luto permanente aos que ficam.

Dois irmãos que não são bandidos — são filhos. Filhos de um pai morto por um policial militar, sem julgamento, sem resposta, sem nome. A culpa é anterior ao crime: geográfica, racial, hereditária. Sequestram o policial. Não têm um plano — têm uma raiva e um homem nas mãos. O que vem depois é improviso, arrependimento, fúria.

Pasolini já havia dito, horas antes de ser assassinado, que o perigo não vinha de fora — estava dentro das instituições, nos desejos moldados para destruir. No Brasil, essa advertência não é roteiro de ficção. O estado que extermina fabrica, na mesma operação, os filhos que vão gritar: vamos matar esse fascista. Fanon chamou de intervalo o tempo entre o luto que não fecha e a explosão que não volta atrás. A peça vive ali.

Uma cantora abre tudo lá fora, na rua, antes de qualquer palco. A banda entra e dita o pulso do confinamento. Caio Nogali, Odá Silva e Samurai Cria sustentam o cerco no limite do corpo, agressão tátil e moral, sem distância segura. O cativeiro vira tribunal.

Quantos prólogos são necessários para que algo aconteça?

Ficha técnica

Direção: José Fernando Peixoto de Azevedo (Sociedade Arminda) · Elenco: Caio Nogali, Odá Silva, Samurai Cria
Teatro Iquê, São Paulo

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