Travessia
Em 1816, o naufrágio de uma fragata francesa ao largo da costa da Mauritânia deixou 150 pessoas à deriva numa balsa improvisada, enquanto oficiais e passageiros privilegiados ocupavam os poucos botes disponíveis. A tragédia, eternizada por Géricault em A Balsa da Medusa (1818–1819), é o ponto de partida de Travessia, encenação dirigida por Gabriela Mellão. O evento não aparece aqui como passado encerrado: aquela balsa é a matriz de uma política de descarte que nunca parou. O mapa recua para lembrar que o próprio território brasileiro foi forjado por lógicas semelhantes, com o mar como primeira rota de invasão e apagamento de populações.
O palco assume a função de alfândega num jogo metateatral: um teste de elenco para a Oresteia. Intérpretes com vivências reais de deslocamento, da Venezuela, da República Democrática do Congo, da Gâmbia e de nações indígenas, passam por uma triagem. A exigência de dominar o cânone ocidental revela o pedágio identitário cobrado pelas metrópoles: ocultar as matrizes originais em troca de uma permissão provisória de existência.
A ação se organiza na polifonia, idiomas em colisão sob as notas do violoncelo de Federico Puppi. Os corpos formam quadros vivos que recriam a instabilidade da balsa. Quando um cede, a base do coletivo inteiro vacila.
É na serpente ancestral que o texto encontra uma de suas imagens mais singulares. Quando a atriz engole a cobra que transita pelo espaço, o engasgo é político. O gesto traduz a violência de tragar a própria memória para sobreviver num sistema incapaz de reconhecer aquela linguagem.
Toda essa construção converge para a falência das políticas imigratórias contemporâneas. A lógica da exclusão de dois séculos atrás segue operando: o mesmo poder que negou botes aos subalternizados ecoa na omissão diante dos corpos tragados pelo Mediterrâneo e no encarceramento em massa promovido por agências como o ICE, nos Estados Unidos. Onde os governos operam por barreiras, a solidariedade entre estrangeiros é a única rede de apoio.
Ficha técnica
Direção e Dramaturgia: Gabriela Mellão · Direção Musical e Violoncelo: Federico Puppi
Sesc Belenzinho, São Paulo