Leonardo Netto – O Motociclista no Globo da Morte e Pequeno Circo de Mediocridades
Essa é a segunda parte da conversa com Leonardo Netto. Na primeira, ele contou a trajetória de ator até virar autor. Aqui, os dois textos que assina: O Motociclista no Globo da Morte e Pequeno Circo de Mediocridades.
Em “O Motociclista no Globo da Morte“, os dois personagens centrais se chamam Antônio. Um é um homem pacato, civilizado, que tenta se conter pela razão. O outro é o que resta quando essa tentativa fracassa. A duplicação do nome não é acidente. “A minha intenção era justamente falar sobre essa natureza violenta do ser humano, que, por mais que seja recoberta por camadas de civilidade e racionalidade, continua latente. É algo que me assusta muito. Eu criei dois personagens propositalmente com o mesmo nome, Antônio. Um deles é o protótipo dessa masculinidade tóxica, bárbara; o outro é o homem que tenta se aprimorar, ser lapidado e racional.”
A leitura da crítica seguiu essa mesma direção, descrevendo a peça como uma dissecação da masculinidade e da fragilidade da civilidade diante da violência latente. Netto reconhece a leitura como exatamente aquilo que pretendia provocar. “Fico muito orgulhoso e emocionado com as mensagens que recebo de pessoas que assistiram e foram tocadas pela peça, porque a minha intenção ao escrever era exatamente provocar esse abalo.”

Nada daquilo foi inventado. Netto presenciou, por acaso, um episódio de violência que o marcou profundamente, e usou aquilo como gatilho para o personagem que criou. Colocar aquilo no papel custou caro fisicamente. “Ter que me dedicar a descrever os detalhes, o som do impacto, a brutalidade, embrulhava o meu estômago. Eu passava mal fisicamente. Tinha momentos em que precisava levantar, sair da frente do computador e adiar a escrita, porque era muito doloroso e perturbador imaginar e descrever aquilo.”
Netto diz que se reconhece no personagem o tempo inteiro, não como ficção, mas como possibilidade real. “Apesar da minha total aversão à violência, eu tenho consciência de que a capacidade de cometê-la existe dentro de mim e de qualquer ser humano. Depende apenas da situação e do gatilho.”
Diferente de tudo que Netto já escreveu, esta é a única peça sem humor. Todos os outros, segundo o próprio autor, carregam alguma camada de ironia, mesmo tratando de temas difíceis. Pequeno Circo de Mediocridades, escrito durante a quarentena, volta a esse registro.

A peça também lida com violências absurdas, como um cliente de restaurante agredindo um mendigo ou alguém atropelando um garoto, mas processa isso pelo humor. “Eu gosto de brincar com o humor como ferramenta para expor o ridículo e a hipocrisia humana, e essa mistura de acidez com comédia é muito mais presente no meu estilo de escrita do que o tom grave e implacável de O Motociclista.”
A entrevista completa com Leonardo Netto também inclui uma conversa sobre carreira, publicada em texto separado. A terceira parte, sobre o fascínio pela violência real, também está disponível.