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Otávio Martins – Entre Irmãos

Por Marcelo Fava · 03 SET 2026

Na primeira parte desta conversa, Otávio Martins contou como uma banda cover de brega virou carreira de teatro, e como uma ligação de telefone com Fernando Pavão virou o argumento de “Entre Irmãos”. Esta segunda parte entra na peça propriamente dita: a divisão dos papéis, a encenação no Teatro Vivo, e como nasceu “Asas de Pano”, ao lado de Eliete Cigaarini.

O texto de “Entre Irmãos” nasceu antes de qualquer decisão sobre quem faria qual personagem. “A gente teve a construção do texto e uma clareza sobre como seriam esses dois irmãos, sem a gente saber ainda quem faria qual papel, porque na prática tanto eu como o Fernando somos os irmãos que saíram de casa.” A escolha virou brincadeira entre os dois: Pavão ficou com o irmão gay e sem filhos, mais próximo da vida de Otávio; Otávio ficou com o irmão hétero, que tem filhos e cuida deles, mais próximo da vida real de Pavão. Segundo Otávio, não houve nenhuma pesquisa dirigida. “Não tem nenhuma referência biográfica na peça.”

Entre Irmãos
Entre Irmãos

A vontade de tirar a plateia da distância convencional já existia nos ensaios, feitos num espaço da SP Escola de Teatro parecido com o do Teatro Vivo. “A gente sempre falava: nossa, ia ser tão gostoso se a gente colocasse o público em volta. Mas em palco italiano é mais difícil fazer isso, a não ser que o espaço seja propriamente para isso.” Sem essa distância, o trabalho do ator muda de natureza: “A verdade tem que ser entregue sem nenhum truque, sem nenhuma pausa, sem nada que seja de efeito teatral.”

Nos ensaios com o diretor Marcos Damigo, a dupla revisitou a fase tardia de Stanislavski, os chamados etudes, base da encenação. Para quem assiste, Otávio descreve o efeito como o de estar num velório de verdade: “Você não vai prestar atenção somente no que nós dois falamos. Você também presta atenção no outro, e passa a perceber que você e o outro são parte da obra também. Eu acho isso muito bonito.”

O humor não é um recurso pensado especificamente para “Entre Irmãos” — atravessa tudo que Otávio escreve. “Eu uso muito o humor para abrir o espectador para aquilo que vem pela frente, e muitas vezes retomo o humor para gerar um deliberado alívio, dependendo da gravidade da situação dramática. Eu sou um amante da comédia.” Entre ele e o irmão real, a relação não tem nada do atrito dos personagens: “A gente se dá muito bem. Meu irmão é um dos meus melhores amigos, de fato.” Da vida real, a peça leva os dois arquétipos, não o conflito: “O irmão que vai, que vai ver o mundo, que vai aprender outras coisas, e o irmão que fica, que cuida, que conserva, que mantém.”

“Asas de Pano” começou como um argumento solto que Eliete Cigaarini trouxe até Otávio, ainda sem saber que caminho dramatúrgico seguir. “A gente foi fazendo o texto aos poucos. Ela ia me mostrando as ideias, eu ia montando isso numa estrutura dramatúrgica, apresentando pra ela, ela entendia essa estrutura, ela desenvolvia, e assim foi feito.” Quando decidiram que a peça seria sobre três gerações de mulheres, avó, mãe e filha, foi Otávio quem sugeriu chamar Gabriela, filha de Eliete, para estrear profissionalmente ao lado da mãe: “Achei que nada mais natural do que ser a sua filha, até para comemorar os seus 40 anos de carreira. É muito louco você pensar que a estreia profissional da Gabriela foi no espetáculo de 40 anos de carreira da mãe.” A amizade com Eliete vem de 1993, estreia profissional de Otávio, na peça “After Magritte”, com direção de Ivan Feijó. “Eu devo muito à Eliete… e eu segurei a Gabi no colo quando ela tinha três dias. É uma jornada de família.”

Asas de Pano
Asas de Pano
Asas de Pano
Asas de Pano

A terceira e última parte desta entrevista, sobre método de trabalho e a passagem pela Companhia do Latão, sai em publicação separada. Confira a primeira parte, sobre a trajetória de Otávio até “Entre Irmãos”.

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